Quinta-Feira, 25 de Junho de 2009

Nossos bons vícios


A primeira ideia é que a construção gramatical é um paradoxo: bons vícios? Sim, eventualmente não nos apercebemos que algum vício pode ser benéfico e continuar sendo chamado, quase pejorativamente, de vício, palavra que o pensamento nos remete, de imediato, à bebida, ao jogo e outros hábitos que, aqui ou acolá, se nos apegam.

Como qualquer ser humano tenho lá meus vícios com as duas faces. Entre os bons ouvir música, escrever, saborear feijoada com os amigos todo sábado (há mais de trinta anos), ler, ler muito, ler tudo...

Os maus vícios deixo para meus felizmente raros desafetos ressaltarem para seu deleite.

Vamos, todavia, nos concentrar no que mais ocupa nossas horas: música e leitura, se é que ambos mereçam essa definição, já que vício é vocábulo que logo se associa com algo irregular ou mesmo ilegal.

Música, uma arte especial e diferenciada, que, combinando somente sete sons formam melodias que nos enlevam, nos trazem paz e tranquilidade e alegria à nossa alma. Quiçá entre as maiores criações do cérebro humano, a que mais nos faz feliz. E eu jogo no time daqueles que gostam de todo tipo de música, lógico mais de um que outro. Se o leitor quer saber qual minha preferência na música popular, não vamos falar da admirável música brasileira de Ary Barroso e dos compositores baianos, para não nos estendermos por demais e da nossa música clássica, não tão produtiva, mas quase sempre bela, mas seria injusto não realçar os clássicos, a maioria dos quais, infelizmente, já está no céu onde espero um dia encontrá-los se eu também o merecer. Sonho (como é bom sonhar) em chegar no céu e ser recepcionado com acordes de harpa que produz o som mais celestial, mas em seguida ouvir Capricho Italiano e todo repertório de Peter Ilich Tchaikowsky, meu compositor preferido, com perdão à maioria que prefere Wolfgang Amadeus Mozart, outro mestre, como Maurice Ravel, Georges Bizet, Monteverdi, Handel, Beethoven, Bach, Chopin, Berlioz, Schumann, Liszt, Wagner, Grieg, Manoel de Falla, Claude Debussy, Gershwin e nossos Villa-Lobos e Carlos Gomes, para citar poucos. Vale lembrar que toda música é som, mas nem todo som é música porquanto há alguns que chegam a ferir nossa audição. Música é, sim, um dos melhores vícios.

E a leitura? Se não chegar a se igualar não fica muito distante. A leitura é outro vício que faz bem à vida e, mais que isso, eleva a vida, alimentando nosso conhecimento, abrindo nossa visão para o desconhecido. No meu humilde raciocínio é a melhor e mais econômica forma de “conhecer” o mundo. E, acreditem, há pessoas que nunca viajaram por falta de condições financeiras mas capazes de conversar profundamente sobre inúmeras nações. Eu conheço vários. Ah, a leitura. Curioso, não sinto pena do pobre, do doente, do órfão e outros menos felizes. Sinto pena do analfabeto. Hi... isso me lembra uma historieta, sei lá se fábula ou não. Consta que Rui Barbosa, meu ídolo nacional, estava naquela praça defronte ao Teatro Municipal, no Rio de Janeiro, cujo nome não me ocorre, esperando ônibus que o levaria até sua residência no bairro de Botafogo, se não me equivoco Rua Santa Mariana. E, já idoso e com dificuldade para enxergar, perguntou a pessoa ao lado se ela poderia lhe informar do ônibus que esperava. E o cidadão, sem saber com quem estava falando, respondeu: O senhor me desculpe, mas eu também sou analfabeto! Nem imagino qual poderia ter sido a reação do meu ídolo. Rui, sim o grande Rui Barbosa, baiano que se elegeu deputado provincial por seu Estado em 1878 e no seguinte ano se elegeu deputado geral (eram assim denominados esses cargos à sua época), iniciando uma vida pública que refulgiu por quase meio século, legando à nossa cultura admirável acervo; em minha modesta mas selecionada biblioteca contei mais de vinte obras de e sobre Rui. Eu gostaria que a nenhum brasileiro fossem desconhecidas as melhores lembranças que temos do “águia de Haia”. Em palavras mínimas, era uma reunião internacional para tratar da paz mundial, com presença dos mais renomados oradores do globo. Alguns já de enorme fama. Quando Rui, cidadão desconhecido de país pouco conhecido, baixo e franzino, pediu a palavra alguns não conseguiram esconder o irônico sorriso, como que imaginando “O que será que esse indígena terá para nos dizer”. E Rui que falava vários idiomas, começou ouvindo absoluto silêncio para ao final ser consagrado com a maior ovação do evento. Surpresa geral. Será que esse cidadão é mesmo brasileiro?... Não sem razão foi recepcionado festivamente em seu regresso chamado pela mídia, que ao tempo não tinha essa denominação, de Águia de Haia, meritoriamente. Leitor voraz deixou uma biblioteca com quase quarenta mil volumes que hoje está aberta ao público na prestigiosa e eficiente Fundação Rui Barbosa, que tive a felicidade de conhecer e frequentar durante os mais de vinte anos em que mantive um apartamento na Rua Barão da Torre, frequentado em todas as minhas férias.







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