Segunda-Feira, 26 de Outubro de 2009

Para lembrar ou fica sabendo


A juventude possivelmente não recorda, mas o Brasil viveu nos anos de 1973 a 1975 uma época de severa censura à imprensa. Era o regime militar, que como todo governo não eleito, teme ser derrubado pelas verdades relatadas pela imprensa. Aqui e no mundo.

E aqui, por paradoxal que seja, acabou sendo até divertido em alguns casos. Lembro-me porque aconteceu também comigo. Era eu diretor do jornal “O Estado do Paraná” e de repente, no início da noite, um cidadão entrou na minha sala e se apresentou como sendo da Polícia Federal.

- Pois não.

- Estou aqui em nome da Polícia Federal para examinar o seu jornal.

- Com que fim?

- Para evitar notícias que possam causar perturbação à sociedade.

Ironizei um pouco. O cidadão não gostou e senti que o problema era sério. Pedi que um exemplar do jornal fosse encaminhado à minha sala, mostrei-o e ele riscou várias notícias e autorizei à oficina que fossem canceladas.

Noite seguinte, o senhor voltou novamente. Sim, e com novas ordens. Que ordens? O jornal não pode sair com partes em branco.

- E por que não?

- Porque revela censura.

- E não é o que está acontecendo?

- É, mas o público não precisa saber.

Enraiveci.

- Meu senhor, essas ordens são de quem?

- São do general (não lembro o nome).

- Posso ligar para ele?

- Pode.

Liguei e, como direi, “dei com os burros n’água”. Tentei interpelar e ouvi o seguinte: “O senhor obedeça as ordens ou o jornal será impedido de circular e qualquer ato seu tentando um obstáculo poderá custar-lhe a prisão”. Nunca havia passado por isso e fiquei desorientado. Meditei e lembrei que contra a força não há resistência.

Mas, convenhamos, para um jornalista não há maior castigo do que a censura. O jornalismo é uma profissão fascinante, tão fascinante que no Brasil, verbi gratia, o jornalista é uma profissão pobremente remunerada. Apesar do que o jornalista, que por lei deve ter horário de cinco horas acaba trabalhando muitas horas mais sem qualquer extraordinário.

Tive múltiplas passagens importantes em minha carreira, a exemplo de quando aconteceu o primeiro acidente aéreo em Curitiba, em que perderam a vida o governador de Santa Catarina, Jorge Lacerda e o senador Nereu Ramos. Eu entrei na redação às 19 horas e saí para almoçar às 15 horas... feliz da vida! Ia dizer que é uma loucura, não é a emoção de fazer jornal. E eu fazia com paixão. Era redator de “O Estado do Paraná”, de uma editora que pertencia a dois sócios, Aristides Merhy e Fernando Afonso Alves de Camargo. O jornal, com efeito, foi lançado para dar apoio ao governo de Bento Munhoz da Rocha que havia vencido eleição contra o PSD de Moyses Lupion. E Lupion era dono de um jornal e controlava o outro, dos dois de maior circulação no Paraná. Daí a ideia de um novo jornal que pudesse dar sustentação ao novo governo que se instalava.

Detalhe: modéstia a parte, devo lembrar que eu era o melhor redator de “O Estado”. Tanto que certa noite, o Fernando Camargo, um dos proprietários, que não era diretor de jornal, chegou junto à minha mesa e falou no ouvido: “Você que é o melhor cabeça desta reação, bole um jornal para a gente vender 500 exemplares no fim da tarde nas filas dos ônibus. Tudo bem?”. Alguns dias passados, pronto? Não. Como não, um jornal para vender 500 exemplares nas filas dos ônibus? Eu respondi: “Fernando, vai ser um pouco diferente”. “Como?” “Minha ideia é criar um jornal para Curitiba”. “Como?” “Um jornal para o qual será mais importante um mendigo embriagado na Praça Tiradentes do que um avião que caiu na Indonésia”. Ele só disse: quero ver. E viu.

A primeira briga foi com o título. Toda redação e oficina dando palpite. Lembro-me de algumas ideias: Jornal de Hoje, Jornal do Dia, Jornal do Paraná, Jornal de Curitiba etc. Ouvi tudo e escolhi o que julguei melhor: Tribuna do Paraná.







Contato